quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Castelo.


Eu havia sido prometida em casamento. Ele tinha família nobre, assim como eu, e estavam todos mobilizados em preparar a festa. 
Eu ainda não o conhecia, só tive um breve vislumbre de quem ele era. Não tinha nada contra meu noivo, mas definitivamente não gostava da maneira grosseira com o qual o pai dele tentava me educar pra ser uma boa esposa. 

Eu era viva, loquaz e não parecia ter qualquer desejo pela submissão da mulher, inerente à época. A mãe dele não parecia má pessoa, mas era calada e submissa (como todas as outras), então o tirano se sentia livre pra tentar me adestrar. 

Até que surgiu a irmã dele, minha futura tia. Uma pessoa pela qual eu me apaixonei de cara, com tanta bondade e doçura no olhar, que eu a abracei apertado sem ninguém entender o porquê. Sem dúvidas era uma mulher incrível. Nos tornamos amigas no segundo em que nos conhecemos e, como ela também não suportava viver presa naquele lugar (era viúva e voltou pros cuidados do irmão),  planejamos fugir.                    
   
Eu montava bem, então seria mais fácil. Faltava uma semana pro casamento, então vieram experimentar meu vestido. Era algo entre o vinho e o vermelho, talvez. Com algum tecido macio, talvez veludo, bordado com fios de ouro. Creio que o costume de casar de branco ainda não era utilizado, então poderemos considerar talvez o século XV. 

Eu achava a ideia de me casar sem amor extremamente abominável e pensar que eu seria a esposa de alguém criado por aquele homem, com os mesmos pensamentos mesquinhos e antiquados, me deixava enjoada. Eu me sentia indo pra forca, literalmente. Condenada à uma união infeliz de submissão e sexo mecânico. 

No dia seguinte ao da prova do vestido, preparamos tudo pra fugir. Eu havia ensinado a tia a cavalgar como homem, pois na época as mulheres só podiam andar de carruagem. Depois que todos dormiram, pegamos os cavalos e fugimos. Cavalgamos por pouco tempo até alguém dar um assobio agudo e assustar meu cavalo, que me jogou pra trás e fugiu. 

Gritei pra ela continuar, porque deveriam ser os guardas. Ela hesitou mas eu insisti e ela foi embora, me deixando só no meio do nada. 
O vestido amorteceu a queda mas meu tornozelo doía muito. Tentei levantar duas vezes e não consegui. Pensei em me livrar do vestido pesado mas não conseguiria ir muito longe, pois ouvia passos mesmo estando muito escuro pra ver alguma coisa. 

Senti algo me farejando e gritei. Uma risada masculina. O cão latiu animado e apareceu na minha frente, balançando o rabo. Me esforcei mais pra levantar e não consegui, caindo de novo. O estranho me ofereceu as mãos e elas eram bonitas, bem diferente das mãos sujas que os homens costumavam ter. Disse que eu estava um pouco suja, com a voz divertida. Retruquei que não estaria se um idiota não tivesse assustado meu cavalo e ele abafou o riso, achando graça dos meus maus modos. Eu bufei e aceitei a ajuda e consegui levantar, mas não consegui me manter de pé. 

A dor era muita. Ele me segurou antes que eu caísse novamente e nossos olhos se encontraram. Ele sorriu; eu corei e desviei o olhar. Ele me sentou num tronco e ergueu um pouco meu vestido pra examinar meu tornozelo. Eu mal respirava. Ele falava que estava torcido e eu precisaria de um emplastro pra amarrar por uns dias e, mesmo consciente da dor, eu ficava observando ele. Os olhos, o sorriso, a forma como as mãos seguravam meu pé com delicadeza.  

Ele pegou um lenço do bolso e começou a amarrar meu pé. Perguntou se já nos conhecíamos, porque eu era familiar. Respondi que não, mesmo tendo a mesma sensação quanto a ele. O cão latiu. Ouvimos passos e eu me retesei, mas ele continuou tranquilo. Um guarda chegou e disse que viu um cavalo voltando sozinho, assustado, e ficou preocupado com ele. Pareciam amigos, mas quando o chamou de Sr. a realidade veio à tona: era o filho do tirano. 

Automaticamente puxei meu pé e ele me olhou sem entender, quase magoado. O guarda disse que não deveríamos estar ali, pois o pai dele ficaria bravo se soubesse. Ele disse que eu havia caído do cavalo e torcido o pé. o que qualquer cavalheiro no lugar dele teria feito. O guarda concordou, mas frisou que ele não deveria estar a sós comigo. Ele respondeu que foi respeitoso e que em nada prejudicaria à moça ou a ele o encontro. Me ajudou a levantar. 

O guarda perguntou se ele queria levar de volta a senhorita pro castelo e ele olhou pro guarda e pra mim, confuso. Eu desviei o olhar e ele arregalou os olhos em compreensão. Ficou em silêncio e depois riu, divertido, dizendo que acabou atrapalhando a fuga da noiva rebelde. Fiquei furiosa e pisei no pé dele. Eu gemeu e eu idem, porque esqueci do tornozelo machucado. Ele sorriu e me jogou nos ombros igual um saco de batatas, dizendo pro guarda que ia me levar de volta, enquanto eu me debatia e xingava ele de estúpido. 

Ele se esgueirou pra trás de uma planta e me botou de pé, fui reclamar e ele tampou minha boca com a mão e sussurrou que era o pai vindo. Me acalmei e ele me soltou. Estávamos perto... Até demais, pro meu conforto.Nossos olhos se encontraram e ele perguntou sussurrando por que eu não queria me casar.  Olhando pra ele, não soube dizer bem o motivo. Respondi que odiava seu pai. Ele sorriu e disse que também não gostava muito dele na maior parte do tempo. Eu ri baixinho, relaxando pela primeira vez desde que havia chegado naquele castelo. 

Ele ergueu meu queixo e disse que era bonita. Eu corei. Ele entrelaçou as mãos nas minhas, delicadamente. Eu dei um passo pra trás e encostei na parede. Ele avançou um pouco mais e voltamos a ficar muito próximos. Nos encaramos e ele tinha o olhar muito intenso. Eu respirava com dificuldade, com a tensão. Sentia sua respiração em meu rosto e como não aguentava mais me sentir tensa, soltei as mãos dele e me preparei pra sair, mas ele tocou minha cintura e eu voltei a olhá-lo. Ele sussurrou "eu não sou meu pai". Deslizou os dedos por meu rosto e puxou delicadamente meu queixo, nossos lábios se encontraram e foi como uma explosão de sensações, que me acordaram.

♪ Sleeping at last - Turning page

sábado, 12 de setembro de 2015

Ainda intrigada.




Sabe aquela minha ideia de pensar sobre o que estava acontecendo e voltar pra contar?
Foi a pior ideia da minha vida, porque eu só fiquei mais chocada e intrigada do que estava antes.


Então vou parar de enrolar e falar a respeito, antes que eu mude de ideia. 


Você acredita que possa existir alguém que seja praticamente igual a você, no mundo?
Eu não acreditava até semana passada. 

Até porque eu sou uma pessoa esquisita pra caramba, então né... Isso torna mais difícil.

Eu conheci uma pessoa peculiar. Tão igual a mim que me assombra.
Eu ainda tô esperando o momento em que vai acontecer algo e eu vou ver que foi só impressão,porque eu sou cética pra caramba.

Já cogitei a possibilidade de ter sido vigiada, hackeada, leitura de mentes, tido algum diário extraviado... enfim, muitas. 
Nenhuma delas faz sentido, exceto a leitura de mentes. Uma pessoa inteligente como eu poderia saber fazer isso, embora eu não saiba.
Literalmente, ao menos. Talvez só um "sexto sentido" que me faça conhecer as pessoas, sem conhecer as pessoas de fato.

Se você soubesse o quanto a humanidade é podre. Talvez você fosse tão isolado quanto eu.

Enfim, eu só preciso montar esse quebra cabeças. Eu sinceramente nem sei o que dizer ainda ou se eu vou querer dizer. 
Talvez eu não queira compartilhar essa parte de mim.

Volto em breve.


sábado, 5 de setembro de 2015

Intrigada.



Aconteceu uma coisa muito, muito estranha.
Sabe quando você fica chocada com alguma coisa muitas vezes seguidas?

Eu honestamente nem sei o que dizer, e você sabe que palavras não me faltam. 
Talvez eu não esteja tão sozinha no mundo assim.
Talvez existam outras pessoas tão perdidas como eu. 

Eu volto pra falar sobre isso assim que eu entender melhor as coisas.
Ou encontrar uma teoria que explica uma coincidência tão esquisita.

Desculpa não explicar agora. É muito complexo.

Eu volto.